Em discurso, Romário fala da paralisia do País

Discurso na íntegra:

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Senadores,

Esta semana o Senado retoma a agenda de discussões e votações, depois do recesso de fim de ano, que foi importante para que todos pudessem passar mais tempo em suas bases, conversar com as pessoas e conhecer melhor as dificuldades e as esperanças do nosso povo.
Acho que todo brasileiro terminou 2016 com a impressão de ter vivido uma montanha-russa de acontecimentos. O país viveu um traumático processo de impeachment, organizou uma olimpíada e passou por uma eleição. Entre uma coisa e outra, prisões de figuras importantes e escândalos de corrupção revelados pela operação Lava-Jato.

Com o país paralisado, uma grave crise econômica se estabeleceu e se aprofundou, gerando o triste cenário de 12 milhões de desempregados. Doze milhões de famílias que passaram o fim de ano no aperto e enfrentam, todo dia, o drama de sobreviver e manter a dignidade.

Senhor Presidente, isso não pode continuar. Estamos desperdiçando a chance de desenvolver e modernizar o Brasil. Se não o fizermos, outros países farão, e ao invés de liderar e dar o exemplo, viveremos das sobras, eternamente vendendo barato o que colhemos com tanto suor. Não é essa a história que queremos escrever. Esta é uma geração de luta, merecedora da vitória.

Quando a gente fala na crise de um país inteiro, às vezes parece muito distante. Mas o que está em jogo é a bolsa de estudos que mantém os meninos na escola, na favela aqui do lado. É o dinheiro para comprar o equipamento do laboratório de pesquisa, aqui pertinho. É o emprego do jovem que acabou de terminar um curso técnico e cruzou com você na rua, com uma pastinha debaixo do braço. É o futuro de quem acabou de nascer.

O meu estado, O Rio de Janeiro, atravessa uma crise dramática. Funcionários públicos, trabalhadores honestos, sem receber os seus salários, pedindo emprestado para comer e pagar as contas. Conflitos todo dia na porta da Assembleia Legislativa; pessoas morrendo na porta de hospitais que não têm sequer antibióticos na prateleira. Uma situação de calamidade que afeta todo mundo, mas principalmente os que não têm a quem recorrer.

A Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a UERJ, está completamente paralisada pela falta de recursos. Sem pagar os salários, sem pagar a limpeza e o recolhimento do lixo. São milhares de estudantes sem aula e importantes pesquisas abandonadas. O Hospital Universitário Pedro Ernesto pode parar o atendimento à comunidade a qualquer momento. É um cenário em que professores e pesquisadores já falam até em deixar o país, por não aguentarem mais tanto descaso.

E o que foi que deu errado com o Brasil? Escolhas equivocadas na condução da economia, sem dúvida. Mas muito também se deveu, direta ou indiretamente, à corrupção generalizada, que, se não foi inventada agora, expandiu suas garras e perdeu a vergonha nos últimos anos. O recurso que deveria ser usado para construir a infraestrutura que gera empregos foi parar no bolso de políticos, burocratas e empresários sem ética e sem coração. É tanto corrupto que, só assim, começamos a prestar mais atenção nas cadeias, que agora abrigam figurões acostumados ao luxo e aos puxa-sacos.

A Lava-Jato vai seguir em frente, e agora que o caminho foi aberto, outras se seguirão. A faxina ainda não acabou.
Este é o cenário, mas o que fazer agora?

O Senado pode fazer muito, pode fazer mais do que fez no ano passado. Meu apelo aqui hoje é que cada um dos Senadores e Senadoras vá além da sua obrigação. Que cada um deixe de lado as diferenças de opinião e trabalhe duro, com o único objetivo de encontrar as melhores soluções para nos tirar desse atoleiro, sem nos dividir por partidos ou ambições pessoais. Este ano não tem eleição, não tem Olimpíada e não tem desculpa.
Em breve vão chegar a este Senado as propostas de reforma da previdência e das leis trabalhistas. São mudanças muito profundas, que afetam a vida de todos os trabalhadores, e temos que construir uma solução que priorize os direitos conquistados e a garantia de um futuro com segurança para os trabalhadores. A reforma do ensino médio é também um projeto importantíssimo, que exige dedicação e muito debate.

Teremos pela frente, Senhor Presidente, um ano de grandes desafios. Estou aqui me prontificando para o trabalho e fazendo um chamamento para que o Senado assuma o seu protagonismo nessa virada de jogo que o Brasil precisa, com tanta urgência.
Era isso o que eu tinha a dizer. Muito obrigado.

Ascom

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