O deputado federal Romário (PSB-RJ) faria um discurso na tarde desta terça-feira (02) na Câmara dos Deputados sobre assuntos que envolvem o Comitê Olímpico Internacional, o Comitê Olímpico Brasileiro e o Comitê Organizador Local das Olimpíadas de 2016.
Devido a ausência de quórum, o discurso será publicado abaixo:
PRONUNCIAMENTO. DEPUTADO
ROMÁRIO. REELEIÇÃO COB/COI/CO-RIO.
Senhor
Presidente,
Senhoras
e senhores deputados,
Nos
próximos dias, o Sr. Carlos Arthur Nuzman poderá ser reconduzido ao cargo de
Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, que ele ocupa há nada menos que dezessete anos. E ele tem grande chance
de conseguir estender por mais 4 anos o seu reinado: afinal de contas, é
candidato único!
Comandar
o esporte olímpico do Brasil é, com certeza, uma missão de grande
responsabilidade, ainda mais às vésperas da primeira edição dos Jogos no nosso
país. Por isso, é fundamental estarmos atentos para saber se o Presidente do
COB está realmente comprometido com
os interesses do Brasil, ou se ele atende, em primeiro lugar, ao Comitê
Olímpico Internacional.
Um
dos amigos do Sr. Nuzman no COI, pelo que me consta, é o Sr. Patrick Hickey, irlandês, membro da
Diretoria Executiva da organização e do Comitê de Coordenação que acompanha a
organização dos Jogos do Rio de Janeiro. Eu gostaria de saber – talvez o Sr.
Nuzman possa esclarecer ao Parlamento e à sociedade brasileira – se o Sr.
Hickey costuma visitar o Rio para contribuir com os preparativos do evento, ou
para sondar oportunidades de negócios para sua família. Afinal, eu soube de
fonte segura que o filho dele trabalha numa subsidiária da empresa que ganhou,
pela mão do Sr. Hickey, o direito de vender ingressos para os Jogos Olímpicos
de 2016.
Todo
mundo sabe da minha preocupação em garantir a todos os cidadãos acesso aos jogos da Copa do Mundo e das
Olimpíadas. Por isso, algumas informações me preocupam muito.
Foi
noticiado na Inglaterra que o Sr. Hickey concedeu a alocação dos ingressos da
Irlanda para os Jogos Olímpicos de Londres a uma empresa privada que, por sua
vez, criou pacotes de ingressos com hospedagem voltados para a clientela mais
rica.
Essa
empresa foi o Grupo Marcus Evans,
que tem uma longa história de negociações de ingressos para jogos
olímpicos. Investigações do jornal The
Sunday Times levaram à descoberta de que esse grupo, Marcus Evans, estaria
revendendo bilhetes que tinham sido reservados, inicialmente, para os comitês
olímpicos da Grécia, de Malta – e da Irlanda.
A
Comissão de Ética do Comitê Olímpico Internacional já abriu sua própria
investigação sobre os negócios do Grupo Marcus Evans envolvendo ingressos de jogos.
Essa Comissão poderá verificar, por exemplo, se houve envolvimento de Patrick
Hickey na alocação de ingressos da Irlanda para os Jogos de Inverno da Rússia,
que acontecerão em 2014, para esse mesmo grupo empresarial.
Senhor
Presidente:
Vossa
Excelência e os nobres colegas com certeza já perceberam qual é a minha maior
preocupação. Eu me pergunto o que vai acontecer com os ingressos para as
Olimpíadas do Rio de 2016.
Será
que o Sr. Hickey vai conceder direitos de venda de ingressos ao grupo que
oferecer mais dinheiro?
Será
que o Sr. Carlos Arthur Nuzman, caso continue o seu reinado à frente do esporte
olímpico brasileiro, vai permitir que operadores comerciais assumam o controle
da venda de ingresso para os nossos Jogos?
Será
que aqui no Brasil os ingressos para os Jogos serão objeto de luxo, e a classe
média, os pobres, só poderão assistir às competições pela TV?
Essas
coisas me deixam com uma pulga atrás da orelha, Senhor Presidente. Também acho
incômodo o fato de Stephen Hickey,
filho do Sr. Patrick Hickey, trabalhar numa subsidiária do Grupo Marcus Evans,
uma empresa chamada Hospitality Group.
Será isso uma mera coincidência?
Através
dessa empresa, o Grupo Marcus Evans conseguiu uma proeza, que foi a de montar um
empreendimento em Londres, durante os Jogos, chamado de “Casa Olímpica
Irlandesa”. O local, que cobrava ingressos caros e servia bebidas até a
madrugada, foi divulgado como sendo “oficial”, e utilizava o símbolo oficial
dos jogos – um privilégio que marcas globais como McDonald´s, Samsung e
Coca-Cola só conseguiram após caríssimas negociações. A Casa fechou as portas
após os Jogos Olímpicos, e não reabriu nos Paraolímpicos.
Existem
outras passagens meio nebulosas na carreira desse membro do COI, o Sr. Patrick
Hickey. Eu gostaria de ouvi-lo sobre casos de corrupção no meio olímpico,
inclusive sobre episódios relacionados à candidatura de Salt Lake City para as
Olimpíadas de Inverno em 1991, que se tornaram, posteriormente, o maior
escândalo de suborno da história olímpica.
Obtive
a cópia de uma carta que o Sr. Hickey escreveu, em 1991, para os dirigentes que
comandavam a candidatura de Salt Lake City para aqueles Jogos. Nessa carta
“estritamente privada e confidencial”, o Sr. Hickey fez algumas revelações
chocantes aos seus amigos americanos. Ele disse: “Alguns membros do COI
fecharam um contrato com Nagano para votar neles por uma taxa de U$ 100 mil.”
O
próprio Hickey afirma que obteve essa informação com Mario Pescante, que mais
tarde sobreviveu a um escândalo de acobertamento de doping no futebol italiano,
tornando-se Ministro de Silvio Berlusconi e, depois, membro do Comitê Olímpico
Internacional.
O
Sr. Hickey manteve a informação sobre corrupção na família olímpica em segredo.
É meu dever torná-la pública.
Aliás,
é importante que o Sr. Hickey seja ouvido pela Comissão de Turismo e Desporto
desta Casa, de que sou membro. Essa seria uma oportunidade para ele esclarecer
como pretende conduzir a venda de ingressos para os Jogos do Rio de 2016.
Precisamos
saber se haverá algum tipo de favorecimento a um grupo empresarial específico.
Talvez ele possa nos revelar, também, se houve alguma negociata na eleição do Rio para sede das Olimpíadas.
O
Sr. Carlos Arthur Nuzman, até hoje Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro,
também deveria vir à Câmara ajudar a esclarecer, com a máxima transparência,
como será feita a distribuição de ingressos para as Olimpíadas do Rio, e que
chance a parcela mais pobre da nossa população vai ter, se é que vai ter, de acompanhar de perto essa grande festa.
Para
finalizar, Sr. Presidente, quero deixar registrada minha indignação diante dos
fatos vergonhosos divulgados pela
imprensa há poucos dias, sobre furtos de dados sigilosos relativos aos Jogos de
Londres por funcionários brasileiros. Ainda falta muita coisa a ser
esclarecida, e vou solicitar à Comissão de Turismo e Desporto que convide os
funcionários demitidos do Comitê Organizador das Olimpíadas do Rio, como a Sra.
Renata Santiago, para que exponham
suas justificativas e ajudem a esclarecer esse episódio bizarro de furtos de
dados.
Há
indícios de que esse não foi o primeiro furto desse tipo. Precisamos de
esclarecimentos sobre o episódio que, em 2007, culminou na demissão de Rodrigo Hermida, do Comitê Organizador
dos Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, como noticiou o jornalista Juca
Kfoury. Rodrigo, que hoje trabalha na organização da Copa de 2014, foi punido,
na época, por copiar sem autorização dados da empresa multinacional EKS. Será que Nuzman não se lembra de
nada disso?
É
importante que Rodrigo Hermida
também seja convidado para trazer esclarecimentos à nossa Comissão.
Nos
próximos dias, enviarei um Requerimento de Informação ao Ministro
Aldo Rebelo, solicitando que sejam apurados fatos que mencionei anteriormente.
Além disso, encaminharei uma Proposta de Fiscalização e Controle à Comissão de
Turismo e Desporto, pedindo para o colegiado, com auxílio do Tribunal de Contas
da União:
-
Fiscalizar o CO-Rio 2016, no que se refere à venda dos ingressos dos Jogos
Olímpicos e Paraolímpicos;
-
Auditar a origem e a aplicação dos recursos públicos destinados ao COB; e
-
Auditar as contas do COB.
Mais
do que nunca, é preciso que a Presidenta Dilma e o Ministro Aldo Rebelo se
mantenham firmes e não recuem da decisão de só repassar recursos públicos a
entidades que modernizarem seus estatutos e limitarem os mandatos dos seus
dirigentes. Essa é uma tendência mundial. O Comitê Olímpico Internacional já
alterou o seu estatuto, que agora só permite uma reeleição. E o Comitê
Paraolímpico Brasileiro adotou esse preceito democrático de maneira espontânea.
Não
recue, Presidenta! A senhora tem o meu apoio e o apoio de todos aqueles que
amam o esporte e desejam que ele seja sempre comandado por gente séria,
competente, que tem respeito pela coisa pública e que, por isso mesmo, não
precisa agir nas sombras.
Era o
que tinha a dizer.
Muito obrigado.













