Dia de sessão deliberativa na Câmara dos Deputados. No café ao lado do plenário, duas mulheres cochicham. Máquina fotográfica em punho, olham hesitantes para uma das mesinhas à esquerda. Tomam coragem, põem um sorriso no rosto e se aproximam da cadeira ocupada por um deputado federal. Era Jean Wyllys (Psol-RJ), conhecido nacionalmente após vencer a quinta edição do Big Brother Brasil. Alvo dos holofotes, parlamentares que ganharam fama antes de entrarem na vida político-partidária chamam atenção nos corredores e não escapam da tietagem. O sucesso que lhes rendeu a vitória nas urnas, no entanto, também alimenta olhares desconfiados.
Rompendo rótulos e desfazendo preconceitos, algumas dessas celebridades provam que também podem exercer bem o papel de parlamentar. Eleito com 1.353.820 votos, Tiririca (PR-SP) apresentou oito projetos de lei e destinou R$13,5 milhões em emendas parlamentares à manutenção de hospitais e asilos, além de projetos culturais e esportivos. Também ganhou destaque por ser um dos oito deputados federais (em um universo de 513) que nunca faltaram a uma única sessão deliberativa.
Contrariando possíveis expectativas de jornalistas esportivos, quem também tem assiduidade exemplar é o ex-jogador de futebol Romário (PSB-RJ), que tinha fama de faltar aos treinos. Mais que isso: ídolo nacional, ele virou importante cabo eleitoral no segundo turno. Percorreu 58 mil quilômetros, subindo ao palanque em 62 cidades. Para isso, chegou a acordar antes do nascer do sol. "O problema das celebridades é que todo mundo tem a expectativa de que elas serão nulas no parlamento. Nesta legislatura, isso não se confirmou", afirma o analista político e diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antônio Augusto de Queiroz.
Voz ativa
Professor universitário, colunista e autor de três livros, Jean Wyllys se afastou da imagem de ex-celebridade instantânea. Com passado de lutas contra o cerceamento de direitos, não só da comunidade LGBT, mantém a mesma linha de atuação no legislativo. É voz ativa por mais justiça social e tenta arrecadar as assinaturas de 171 deputados para apresentar uma proposta de emenda à Constituição em favor do casamento civil igualitário, permitindo a união matrimonial de homossexuais. Recentemente, foi premiado pelo Congresso em Foco como o melhor deputado de 2012.
Com passado de envolvimento nas discussões pautadas pelos movimentos sociais e participação em comunidades eclesiais da Igreja Católica, Jean Wyllys rebate quem afirma que ele não tem berço político. E critica a forma de fazer política de pai para filho. Em entrevista à TVDN, do Diário do Nordeste, falou da discriminação em relação aos parlamentares famosos. "A política precisa de renovação. Não precisa de preconceito."
Do campo ao plenário
"Sou muito mais ídolo hoje do que eu era (quando jogava futebol). As pessoas ainda me consideram um dos grandes jogadores da história mundial. Mas hoje elas me vêem fazendo algo de concreto", destaca ao Correio o deputado Romário. No mandato, levanta as bandeiras de defesa dos direitos das pessoas com deficiência e com doenças raras e apoia a luta contra as drogas. Também atua em questões ligadas ao esporte, assumindo, inclusive, o compromisso de fiscalizar as obras da Copa do Mundo. "Entrei na política para fazer o bem do povo e estou muito feliz."
Em relação à assiduidade, Romário diz que não é um "cara presente" para agradar os outros. "Como eu estou começando e aprendendo, tenho que estar presente", afirma. Comparando com a época de jogador, acrescenta que nos últimos oito anos de carreira, não assinava um contrato sem antes conversar sobre os horários dos treinos. Justificava o baixo rendimento nos treinos da manhã com a vida noturna agitada que levava.
Romário está feliz com a atuação parlamentar. "Com o meu histórico de jogador e ídolo, as pessoas nunca vão me esquecer. Mas agora elas já me vêem como um cara sério, que veio fazer diferente", afirma. Romário diz estar apaixonado por Brasília e pelas pessoas da cidade e, antes mesmo de completar dois anos de mandato, comenta que queria ter começado no novo ramo quatro anos antes. "Neste fim de ano, estou passando mais tempo aqui (na capital federal). Fui morar na Lagoa, tenho um campinho de futebol e uma quadra de futevôlei. Minha casa é o Rio e minha política é no Rio. Mas minha performance parlamentar é mais reconhecida em Brasília."
E o baixinho continua falando o que pensa. Repetiu o que já havia dito ao Correio durante o segundo turno das eleições: não votará em Eduardo Campos, presidente do PSB e governador de Pernambuco, caso ele seja candidato à Presidência da República. "Eu não tenho nada contra ele.
Ele é que deve ter comigo", disse, no conhecido "estilo Romário".










